Sons, músicas e movimentos como facilitadores na aprendizagem da matemática

Toda a criança gosta de música e os professores, muito freqüentemente, ensinam cantigas aos pequenos, geralmente acompanhadas de danças, gestos e expressões (coreografia). Os mestres reconhecem que a música favorece a sociabilidade, o respeito-mútuo e a cooperação, melhora a coordenação motora, a atenção e a comunicação.

Todavia, além do canto propriamente dito, muitas outras atividades lúdicas, abrangendo o universo sonoro e musical da criança, podem ser promovidas com o intuito de construir seu pensamento lógico-matemático.

No livro “Brincadeiras Infantis nas aulas de Matemática“, ed. Artmed, as autoras salientam que as brincadeiras musicais representam um inestimável benefício para a formação da personalidade da criança, contribuindo para reforçar todas as áreas do pensamento infantil.

Além disso, o trabalho com a música contempla  o desenvolvimento de muitas habilidades úteis para a construção de noções matemáticas e de processos de resolução de problemas envolvendo noção de espaço, tempo, regularidades e padrões, capacidade de interpretação e compreensão.

Com certeza, a correlação da música com outras áreas do conhecimento é muito pouco explorada. No que diz respeito à matemática, Maffioletti (2005) destaca que além de auxiliar no desenvolvimento da organização espaço-temporal da criança, a música proporciona experiências de representação pois, ao substituir um personagem por um som, a criança está representando e, desta forma, caminha em direção ao abstrato.

A autora salienta que cantar uma canção pronta é o mesmo que vivenciar uma fórmula já que a canção tem uma estrutura própria que a organiza. É importante, também, proporcionar à criança a experiência de compor sua própria música pois, dessa forma, ela estará imprimindo sua organização na composição.

O canto puro e simples trabalha a sequenciação, que é um dos sete processos mentais básicos para a aprendizagem da matemática pois, para cantar, é necessário memorizar uma seqüência de letras e ritmos.

Diferentes atividades envolvendo corpo, som, ritmo e movimento podem ser planejadas para contemplar este e outros processos mentais. Por exemplo:

  • a correspondência termo a termo pode ser explorada numa atividade que relacione sons de animais ou objetos da casa com os desenhos dos mesmos;
  • a formação de filas de alunos de acordo com o critério da voz, da mais fina (aguda) para a mais grossa (grave) exige comparações e seriação;
  • a sequenciação está presente numa brincadeira de reprodução e repetição de uma seqüência de sons produzidos pelo professor, como: bater no peito, bater palma, bater nas coxas ou bater palma, estalar os dedos, bater o pé ;
  • a separação de instrumentos musicais (ou gravuras) de acordo com as semelhanças pode ser feita utilizando instrumentos de sopro (flauta, saxofone, gaita de boca, etc.), de  corda (violão, guitarra, piano, etc.) e de percussão (pandeiro, tambor, pratos, atabaque, etc.) e é uma atividade de classificação.

Brincadeira dos nomes

A “Brincadeira dos nomes” é um exemplo de atividade com sons que têm por objetivo trabalhar sequências, correspondência termo a termo e explorar noções de tempo. Além disso, convida a criança a criar uma “fórmula” musical para seu próprio nome.

As crianças sentam-se em círculo e contam juntas de um a três, repetidas vezes, numa determinada cadência. Depois, cada uma, na sua vez, fala um número da seqüência, ou seja, escolhida uma criança para iniciar a atividade, esta diz o número 1, a seguinte o número 2, a próxima o 3, a seguinte repete o 1 novamente e assim por diante, mantendo o ritmo.

O professor pode bater palmas (ou bater uma estaca em uma lata) à medida em que cada número é evocado para auxiliar no andamento. É interessante repetir várias vezes a atividade para que todos consigam realizá-la com sucesso.

Num segundo momento, a atividade é repetida porém, ao invés de falar o número 3, a terceira criança da seqüência deve dizer o seu nome. Assim teremos, por exemplo, a seguinte seqüência: 1 – 2 – Fernanda – 1 – 2 – Carla –1 – 2 – João Paulo, etc. Novamente, o professor poderá utilizar batidas ou palmas para marcar o andamento. A atividade finda quando todas as crianças tiverem dito o seu nome.

Uma outra versão para a brincadeira consiste em solicitar que cada uma das crianças invente uma música para o seu nome sendo que, em seguida, os colegas devem imitá-la.

Associando sons corporais a letras de músicas

“Ole-lê raca” é uma brincadeira musical que associa  sons produzidos pelo corpo em sequências pré-estabelecidas com a letra da música; também exige a compreensão e interpretação de símbolos. A iniciação da simbolização na educação infantil é importante pois a criança conviverá sempre com símbolos, seja na matemática ou em outras áreas do conhecimento.

 

O professor, primeiramente, ensina a melodia; depois combina com a turma os sons que serão executados (palma, estalar de dedo, batida de pé, etc.) ao mesmo tempo em que os números um, dois, três e quatro são cantados. Há muitas variações para a seqüência de sons; algumas são sugeridas na tabela abaixo.

 

Num primeiro momento, a tabela pode ser reproduzida no quadro para que o grande grupo  reproduza os sons indicados em cada linha da mesma enquanto entoa a melodia. Esse processo exige uma decodificação de símbolos, muito necessário para o  entendimento da matemática.

Quanto as crianças dominarem todas as sugestões de sons para a música pode-se organizar a turma em grupos e, cada um, executará uma sequência de sons diferente dos demais. Primeiramente é feita a interpretação individual por grupo e, depois,  simultânea.

Muitas outras combinações de sons e, até mesmo, de som e silêncio, são possíveis. É interessante o professor incentivar a criação de sequências diferentes destas apresentadas.

Sequência numérica

A canção pode atuar como elemento facilitador da aprendizagem, tornando-a agradável e fixando assuntos importantes, tais como, números, datas comemorativas, folclore, etc.

Com relação à matemática, uma música muito conhecida e que auxilia na fixação da seqüência numérica de um a dez é “Indiozinhos”. Também têm esse propósito a brincadeiras rítmica com rima e sem música “Um, dois, feijão com arroz”  e a música “Carneirinho 1, 2, 3”. Esta última, além de auxiliar na memorização dos números de um a dez, pode ser associada a uma interessante brincadeira que explico a seguir.

As crianças espalham-se pela sala, cantando “Nana, nana neném, nana menino, nana carneirinho 1, 2, 3”, caminhando ao som da música e virando estátua ao entoar o último número, no caso, o três. Em seguida, voltam a cantar e a caminhar, acrescentando, no final da música, o número 4 (“carneirinho 1, 2, 3, 4) e novamente ficam congelados no quatro.

 

Assim prossegue a brincadeira, sempre anunciando um novo número a cada repetição, até que a seqüência alcance o número dez. Frequentemente as crianças distraem-se e cantam um número que não pertence à seqüência, por exemplo, “… nana carneirinho 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7” quando deveriam chegar até o seis.

O professor combina que, quem errar sai da brincadeira. Ganha o jogo aqueles que conseguirem chegar ao final, ou seja, entoar a música completa: “nana, nana neném, nana menino, nana carneirinho 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10”.

Música x geometria

As canções que envolvem a exploração do corpo são um ótimo recurso para abordar a geometria. De acordo com Smole; Diniz; Cândido, no livro “Brincadeiras Infantis nas aulas de Matemática“, a primeira geometria é constituída pelo corpo e, a partir do reconhecimento do mesmo, a criança poderá situar objetos colocados ao seu redor.

Na música “Boneca de Lata”, muito conhecida e facilmente encontrada em vídeos do youtube, os alunos apontam as partes do corpo, analisam a posição  das mesmas ( a cabeça está em cima do pescoço, o nariz está entre os olhos e a boca, etc.) e estabelecem uma correspondência termo a termo entre a parte anunciada e aquela apontada.

Em relação à geometria, não faltam opções de músicas que exploram noções de direção e sentido. “Lateralidade”, por exemplo, associa o deslocamento das crianças (para a direita, para a esquerda, para frente, para trás) com a letra da música.

A música pode ser complementada a partir da repetição da melodia original com outras letras, tais como:

“E marcha prá direita, e marcha prá esquerda, e marcha prá direita e volta pro lugar”

“E dança (senta, anda, …) prá direita, e dança (senta, anda, …) prá esquerda, e dança (senta, anda, …)  prá direita e volta pro lugar”

Outra ideia é substituir “prá direita” e “prá esquerda” por “para frente” e “para trás”.

Para reconhecer e nomear as figuras planas quadrado, triângulo e círculo, bem como identificar suas propriedades uma alternativa diferente é cantar “ O que é? ” e caminhar  sobre as figuras desenhadas com giz na quadra da escola.

Dinâmica com copos

Atividades ritmadas com copos são muito interessantes porque exigem coordenação motora, atenção, concentração e repetição de sequências, além de outras habilidades. Aliás, atenção e concentração são fundamentais na aprendizagem da matemática e há estudos que comprovam que atividades de musicalização auxiliam no desenvolvimento de tais habilidades.

Selecionei alguns vídeos muito interessantes, disponíveis no youtube, que mostram dinâmicas musicais com copos. Há propostas mais simples e outras mais complexas porém, sempre é possível adaptá-las ao nível de maturidade dos estudantes.

Essas foram algumas sugestões de atividades que podem ser utilizadas em sala de aula. Espero que você tenha gostado!

Não deixe de ler o artigo “Tabuadas Cantadas em Roda” para conhecer lindas músicas cujas melodias são cantipgas de roda conhecidas para auxiliar seus alunos na memorização das tabuadas!

Finalmente, gostaria salientar que os temas abordados nas músicas podem desencadear projetos, histórias, textos e brincadeiras, dentre outras atividades. Com certeza, a música é um recurso muito rico para que o ensino da matemática ocorra de forma mais prazerosa e agradável.  Basta que o professor dê asas à sua imaginação!

Referências Bibliográficas

MAFFIOLETTI, Leda de Albuquerque et al. Aprender música pode tornar crianças e adolescentes mais atentos e concentrados. In: Jornal da Universidade. Porto Alegre, vol. 8, n. 83, p.8, dez. 2005.

SMOLE, Kátia Stocco; DINIZ, Maria Ignez e CÂNDIDO, Patrícia. Brincadeiras infantis nas aulas de matemática. Porto Alegre: Artmed, 2000.

LORENZI, Regine M. P. L., CHIES, Roselice P. Música e Matemática: atividades sonoras ajudam a construir o pensamento lógico-matemático. Revista do Professor, Porto Alegre, n. 99, jul./set. 2009.

Uma opinião sobre “Sons, músicas e movimentos como facilitadores na aprendizagem da matemática

  • 31/03/2018 em 17:28
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    Oi Rose! Ótimas sugestões de aprendizagem significativa. Parabéns pela criatividade que faz da matemática uma brincadeira divertida de se aprender! Bjos!

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